O livro que você, leitor, tem em mãos provavelmente já lhe sugeriu, ao primeiro contato, um veio a ser explorado. Por isso, antes mesmo desta apresentação que agora você lê, algumas etapas prévias deste percurso já lhe são conhecidas. Na dedicatória, por exemplo, a personagem autoral apresenta a nós leitores uma proximidade e intimidade com autores referenciais do conto, a quem ele rende homenagem. Ao mesmo tempo, contudo, por empregar um tom bastante coloquial, o autor insinua tal intimidade com eles que afasta deste convívio qualquer teor mais erudito ou excessivamente respeitoso.
E o mesmo vale para a epígrafe: a utópica Pasárgada de Bandeira é modificada por uma topografia dos arredores geográficos da personagem autoral que a cita: o bar verde assim reveste de familiaridade e proximidade – mesmo para nós que só o conhecemos porque o imaginamos! – o que era nos versos de Bandeira um constructo de algo longínquo e miticamente inatingível. É uma familiaridade que também nos convida, leitores do livro, a compartilharmos este universo configurado com intimidades e segredos de personagens ficcionalmente apresentadas como se o mundo do autor fosse também um bocado nosso.
A própria autoria, ademais, se recobre com tal vestidura que simula a intimidade. Quem assina a obra não se nomeia pelo nome biográfico que assinala um percurso referido biologicamente e em particular demarcação pessoal de um nome que se reveste, pelo sobrenome, do peso de gerações anteriores. Ao contrário, sua designação apropria-se do apelido pelo qual é conhecido e nomeado pelos amigos: o fraternal Borboleta, aliás, indica também a investidura do autor de uma face de animal metamórfico e volejante, flanando na terra por entre as nuvens a partir das quais erige seres e coisas. O convite é persegui-lo para que também nós, seus leitores, adentremos nestes tópoi revestidos de mágicas descobertas.
Muito desta construção inicial, toda ela já ficcional, aponta os caminhos que virão a seguir no texto de Borboleta. De um lado, esta proximidade forjada por uma linguagem de tom intimista que parece capturada pela familiaridade com coisas cotidianas que pululam ao derredor. Mas sempre, contudo, como se estas se modelassem separadas de suas características e funções habituais para adquirir novos e insuspeitados contornos. Caberia aqui perfeitamente a observação de Mário de Andrade sobre os contos de Murilo Rubião, de tal modo somos presos pelo conto que, enquanto o lemos, acabamos aceitando o irreal como se fosse real, sem nenhuma reação. Os contos que aqui se encontram apresentam o mesmo encanto. Vaguemos por eles para admirar, nos vôos de Borboleta, um pouco deste adejar por lugares, pessoas e coisas.
O primeiro conto do livro, Perseguição, ilustra exemplarmente a duplicidade aqui mencionada. A estranheza do relato de algo absolutamente inusitado se reveste de uma linguagem que mimetiza a intimidade das distâncias próprias de uma prosa mineira: uma árvore – objeto no conto revestido de certas características peculiares e pouco dissonantes das que dela se espera no mundo – aqui anda. Como se ouvíssemos um narrador de histórias de algum rincão das Minas, somos levados à desconfiança – e daí ao matutar – de quem suspeita do que ocorre, mas não se dá por rogado em provar o que não via, mas pressentia: o andar da referida árvore. Toda a narrativa mescla assim o relato ao cogitar desconfiado que dele duvida, sempre numa linguagem que se utiliza de expressões investidas da sabedoria secular que se insinua na linguagem de matiz coloquial (“ruminar as idéias, as aprontar de todo, esmerilhar as quinas”) com ditos e conselhos dos avoengos apresentados como máxima moral: “homem que é homem nunca levanta acusação antes de ter certeza do lado pra que a vaca torce o rabo”. Em meio à cogitação próxima de uma personagem de Rosa, o matutar, no entanto, se lança para algo que foge da ordem fornecida como natural às coisas, numa seqüência que, entretanto, segue a ordem temporal das estações. A personagem-narrador, cismada com o descompasso entre o ocorrido e o esperado, matreiramente procura soluções que lhe possibilitem recompor a ordem rompida. Mas o disparate se reveste de um novo dado: o desenho esboçado numa janela para comprovar o caminhar da planta nada permite para provar o que a personagem crê ver, pois no dia seguinte é a janela que não mais por lá está.
Da dúvida ao convívio lastimoso com a ordem rompida, revela-se a árvore a acompanhar-lhe os passos. Marotamente trava-se um duelo de esconde-esconde em que a personagem-narrador, após desistir de dela se desvencilhar, entrega-se a um convívio que além de prudente parece-lhe ser o mais adequado às vicissitudes, como se do incômodo surgisse uma oportunidade de bem-estar: de perseguidora a árvore passa então a ser prazerosa sombra. Mas o espanto não se esgota: o andar da árvore por ninguém mais é visto. Sabe-se, então, ser um abacateiro, como todos parecem reconhecer. O outro, contudo, que adentra no conto como variável interlocução, nunca parece dar conta do fato percebido apenas pelo narrador. Nem este, no entanto, atina para a carência de serem eles persuadidos, pois este outro é figurado, para o narrador, como ameaça permanente de uma possível reclusão pelo diagnóstico que o ameaça de ter sua atitude tachada como loucura.
No entanto, quando a desordem se arvora como ordem aceita por todos, é outra figuração do outro que apresenta o inusitado que ora surpreende: no fim, enfim, aparece quem na árvore esbarre e recrimine o narrador por levá-la por toda parte.
Exemplarmente, este primeiro conto de Borboleta revolve-se traçando traços que se desdobram nos demais. Cabe destacar – para além da narrativa matutante cujo efeito reflexionante do dito ao pensado é sempre de um linguajar de mineiridade - também a cisão entre o narrador e maior parte daqueles que são enunciados como personae de seu convívio; e a dificuldade de lidar com o rompimento de uma suposta ordem funcional e natural das coisas, na perene e infrutífera tentativa de recompô-la; e a acomodação custosa, mas sempre alcançada, de um espanto que se adequa à ordem rompida e que não é problematizada pelos demais.
O segundo conto, Casa Alemã, narra a vicissitude de uma personagem que de repente esquece por completo o que sempre fizera, seu trabalho. Pouco a pouco novamente instaura-se distância e incompreensão alheias: a imediata demissão do patrão; a internação aconselhada pelo médico; a criação, por parte da família, de uma dependência externa na casa a fim de isolá-lo dos demais membros; os amigos que dele se afastam pelo cheiro decorrente da ausência de banhos e qualquer outro cuidado higiênico. S’oripe, a personagem central, adentra, assim também no imaginário sonoro e figural de uma personagem de Rosa e Rubião.
Diversamente, contudo, do alheamento a tudo, a pesonagem apresenta um novo hábito na sua recomposição do mundo. Sendo assim, adquire a meticulosa mania de recolher, dobrar e separar papéis.
Mas, para além desta desordem social, o narrador adentra também no território mental da personagem, pelo qual se apresentam traços da família, explicitando a exclusão social e racial atávicas. Em meio à desordem, porém, novamente um traço de integração: o amigo Nestor, guardando silêncio, acompanha a personagem central mesmo quando esta se lança à fagia dos próprios dejetos. Mas do caos e desordem novamente emerge uma nova ordem: dos papéis acumulados surge a casa que nem o avô, nem o pai, nem o próprio Eurípides pedreiro – embora todos a tivessem sonhado – construíram. Aponta-se no final para o início do conto, pois por fim se justifica na narrativa a admiração da multidão que inicialmente o cercara. A casa de lixo e papel recompõe no abjeto e na sujeira a reproposição do espanto pela arte dos passantes a contrastar com a reflexão meticulosa e que não se rende ao pragmatismo, pois fruto de um matutar que olha distante para o infinito.
O conto O Bolso narra, por meio novamente de uma personagem em acentuado destaque, as desventuras do narrador com a moça Palmira. Como voyeur dos encontros furtivos desta com o amante, aquele tenta seduzi-la por crer saber o que a ela mais atrai. Pelo sorriso dela ao revolver os bolsos do amante, o narrador nestes vê a causa do fascínio da moça. Ao perceber que a atração não se exerce pelos próprios bolsos, o narrador passa a deles retirar e dar a ela as mais inesperadas coisas. Novamente se rompe a mimética de procedimentos por um mecanismo de presdigitação que é apresentado como se fosse natural, espelhando o natural encanto do mágico de Rubião. Flores, animais de estimação, iguarias, orquestras, estrelas, tudo se lhe é oferecido e ela nada quer, pois nega que eles lhe sejam úteis. Instaura-se, então, um enigma para o narrador apaixonado. Com isso adentra a mimetização de uma linguagem filosófica. Ecoando certos procedimentos machadianos, mescla-se a questão corriqueira amorosa aos dilemas da metafísica ocidental. Novamente há uma cisão. Agora entre a personagem e o sábio ancião por ele consultado. A rejeição da linguagem metafísica, no entanto, apresenta, no fim, o reverso da solução na própria filosofia. Desta feita, é a imagem refletida de um eu que se descobre como desejo da amada. Em mescla do conhece-te a ti mesmo de Delfos a um encontrar-se na subjetividade, apresenta-se a solução para o narrador no mito de Narciso. Como lá, aqui a personagem se lança às águas que o refletem. Diversamente dali, porém, o mergulhar em si é busca desesperada de um outro que nunca vem, pois nunca veio nem virá.
Possessão traz o tormento do narrador com a presença constante da esposa já morta por um suicídio a atenazar sua vida. No contraste de sentimentos e expectativas, a participação obsedante da morta na vida e existência do marido leva este ao inusitado assassinato de uma defunta. Novamente, contudo, reitera-se a incompletude pela ausência de um incômodo que, afinal, preenchia a vida: o tédio da liberação do outro em contraste com o tormento que este era revela-se mais misterioso e inexplicável que os limites da morte que retorna para a vida.
Em A Reforma Pombalina, a narrativa ganha destaque. Mescla-se aqui a fabulação cômica das aves assustadoras de Hitchcock à explícita proximidade com a peça de Aristófanes. E outra vez o texto reverbera Machado, a partir já da ironia do título. No fim, a litania pombalina ressoa Baudelaire, mas, diversamente deste, não opõe a força poderosa de uma negatividade satânica à ordem instaurada, já que a mudança, vista sob lentes semelhantes às do bruxo do Cosme Velho, apenas se inscreve como nova nomeação de uma perene ordem. Se a queda do Império e a instauração da República neste impliquem apenas a mudança da placa da padaria, em Borboleta as pombas detentoras do poder reescrevem o Pater Noster no prolongamento de um domínio sempre ocupado pelo vigário.
Engano narra as vicissitudes de um homem com suas várias mulheres, sempre, porém, com a presença fiel e constante de seu cão. Para além da narrativa cronológica do narrador adentra aqui, antecipando o fim, falas judicativas de personagens femininas não identificadas. Como o coro de uma tragédia, o diálogo destas vozes femininas entremeia a narrativa para, por outro procedimento, novamente demarcar a fronteira entre o normal e o patológico. Sendo assim, a narrativa levada a termo pelo narrador justifica plenamente a fidelidade que ele traça, em linha de continuidade, entre o cão morto e o filho que nasce. Mas a voz do outro que adentra no conto como um coro insiste na avaliação da loucura de quem se distancia do comportamento humano esperado, ora transfigurado numa aliança canina como modelo de éthos em meio à falta de compromisso das relações entre o homem e suas mulheres. A valoração das vozes femininas é assim revertida pelo padrão de fidelidade entre um homem e seu cão, revalorizando o modelo exemplar do cinismo antigo.
O Segredo da Pedra narra a transformação de Maria das Dores em Maria das Graças. A narração se vale do tópos da filha de um coronel que, impedida pelo pai, não pode se aproximar de ninguém. Para além dos muros e janelas, contudo, brota o amor da moça por Gabriel Ricardo, que logo aparece morto. Levada ao paroxismo, contudo, a narrativa ecoa Garcia Marquez e, como Remédios, das Dores se torna, por amor de Gabriel, um anjo. Daí decorre a derrocada do pai e a dor de José de Almeida, também por ela apaixonado. No misto de narrativa alegórica em que as personagens, biblicamente nomeadas, se transmudam em seres da natureza, revela-se misteriosamente este eco da fala de seres e coisas em imagem literária em que Borboleta rende tributo a Drummond.
Raizero apresenta, em reverberação do primeiro conto, a proximidade do homem com a árvore. Novamente em fala de um narrador que mimetiza o matutar caboclo, agora a narrativa explicita a transformação do próprio homem em raiz. Tema caro a Murilo Rubião, a metamorfose também se apresenta em Borboleta, mas com as características próprias pelas quais seus vôos informam uma topografia específica para o maravilhoso. Levado aos rincões de Goiás, o narrador reencontra o amigo como enraizamento cuja firmeza ao solo da tradição se metaforiza, evocando a fala de Cora Coralina, em broto firmado no chão.
A Quarta Verdade, por sua vez, brinca parodicamente com o Discurso do Método cartesiano e suas fundamentadas verdades. Lançando mão de sua formação filosófica, aqui Borboleta reinscreve o arrazoado que busca certezas metafísicas no plano cotidiano que reinterpreta os dados e deixa, a partir deste contato com a existência, a dúvida sobre a certeza da indiferença para com o mundo como a matriz mais próxima de algo semelhante à felicidade.
No conto Non Veritas Borboleta entremeia o risco de morte de uma mãe numa cirurgia com o contraste entre a dor da família e a alegria da cadela nos momentos que antecedem a operação. Com a iminente morte da mãe, o narrador, machadianamente construído, destaca os sentimentos da dor dos parentes com a perda do que a mãe significava na realização de seus desejos mais imediatos. A dor, pungente, é aliviada pela providencial lembrança de uma apólice que assegura a todos uma maior tranqüilidade na consecução de seus anseios. Quando já estão todos conformados com uma morte agora já tranqüilamente esperada, anuncia-se, para espanto geral, ter sido a cirurgia um sucesso. Na expectativa do despertar da mãe, é novamente silenciada a alegria cinicamente estabelecida entre a cadela e a mãe.
Vicentão é o último conto do livro. Narra-se aqui, por intermédio do irmão da personagem que intitula o conto, o estranhamento com uma vida que destoara do comum. Sabe-se então, retrospectivamente, a partir de uma discussão sobre os peixes não mais pescados da lagoa, que Vicentão sempre se distinguira dos irmãos por estatura e princípios. Ainda no campo, ele, desde pequeno, nunca comera carne. Depois, após viver na cidade, a personagem-título explicita razões e doutrinas para justificar seu comportamento. Mescla de narração e explicitação, por meio dela, de matizes filosóficos, o conto disserta sobre a Metempsicose e outros princípios, mas sempre sob a perspectiva de um narrador que conhece do conto só a metade. Aqui, no entanto, a incompreensão e estranhamento com o que se diferencia da normalidade ganham o afeto do narrador e de outras personagens que com ele convivem. A narrativa, revestida de um matiz filosófico, modela, no conto final do livro, personagens que têm uma devoção e um especial carinho pelo que não compreendem, abraçando e acariciando a estranheza.
Para este admirado leitor que ora escreve, os contos de Borboleta, como um estranho inseto que formulasse a percepção do mundo pelas entranhas de suas personagens, destoam do esperado e apontam para uma literatura que resvala o maravilhoso. Este, na afirmativa de Carpentier, como uma “alteração inesperada da realidade”, ilumina o real pela revelação “das riquezas despercebidas da realidade, de uma ampliação das escolas e categorias da realidade, captadas com particular intensidade, devido a uma exaltação do espírito que conduz a uma espécie de ‘estado limite’.” Há em Borboleta como uma topografia do real que, no entanto, opera o maravilhoso como parte da própria realidade. Ele de tal modo insere a diferença na normalidade que o paradoxo aparece como uma dóxa a mais. Paradoxalmente, contudo, aquele, mesmo se apresentando como uma dóxa entre outras, é muito melhor do que as demais para a compreensão do mundo. Estas supõem um norte que normatiza; o paradoxo inverte os pontos cardeais para explorar as diversas camadas e veios que forjam um real que não é previamente pressuposto nem se articula pelas personagens que não ganham realce em seus contos. Estas parecem sempre se deixar guiar pelas dóxai norteadas. As personagens centrais dos contos de Borboleta, entretanto, deslocam o centro; movem as árvores; matam os mortos, em busca do sossego em vida; humanizam a fidelidade dos cães com certa misoginia nascida a partir do encanto e poder da mulher; abandonam a terra para encontrar-se nos céus e nas águas. Há toda uma topologia que redescobre o pouco que há de melhor no homem a partir de uma reversão da ordem figurada como estabelecida pela normatividade e normalidade das dóxai.
O inverossímil assim recebe contornos de verossimilhança, pois coisas e seres se mostram sempre a partir do olhar instigante destas personagens paradoxais que vêem e circunscrevem medidas de um outro espaço e tempo, compostos a partir da presença do ficcional que se delineia na trama da narrativa singular destas personagens.
Ao leitor, pois, que inadvertidamente chega até o final desta apresentação, cabe, em primeiro lugar, lamentar pelo tempo perdido ao lê-la: melhor valia ter ido de imediato à saborosa prosa de Borboleta. Além disso, para concluir, cabe destacar a este leitor paciente que aqui chega: os contos de Borboleta são tão voláteis e encantadores como a alcunha do autor, ensejando tanto a perseguição quanto a apreensão, como se fôssemos caçadores e colecionadores deste lepidóptero e das ricas crisálidas que o revestem.
E o mesmo vale para a epígrafe: a utópica Pasárgada de Bandeira é modificada por uma topografia dos arredores geográficos da personagem autoral que a cita: o bar verde assim reveste de familiaridade e proximidade – mesmo para nós que só o conhecemos porque o imaginamos! – o que era nos versos de Bandeira um constructo de algo longínquo e miticamente inatingível. É uma familiaridade que também nos convida, leitores do livro, a compartilharmos este universo configurado com intimidades e segredos de personagens ficcionalmente apresentadas como se o mundo do autor fosse também um bocado nosso.
A própria autoria, ademais, se recobre com tal vestidura que simula a intimidade. Quem assina a obra não se nomeia pelo nome biográfico que assinala um percurso referido biologicamente e em particular demarcação pessoal de um nome que se reveste, pelo sobrenome, do peso de gerações anteriores. Ao contrário, sua designação apropria-se do apelido pelo qual é conhecido e nomeado pelos amigos: o fraternal Borboleta, aliás, indica também a investidura do autor de uma face de animal metamórfico e volejante, flanando na terra por entre as nuvens a partir das quais erige seres e coisas. O convite é persegui-lo para que também nós, seus leitores, adentremos nestes tópoi revestidos de mágicas descobertas.
Muito desta construção inicial, toda ela já ficcional, aponta os caminhos que virão a seguir no texto de Borboleta. De um lado, esta proximidade forjada por uma linguagem de tom intimista que parece capturada pela familiaridade com coisas cotidianas que pululam ao derredor. Mas sempre, contudo, como se estas se modelassem separadas de suas características e funções habituais para adquirir novos e insuspeitados contornos. Caberia aqui perfeitamente a observação de Mário de Andrade sobre os contos de Murilo Rubião, de tal modo somos presos pelo conto que, enquanto o lemos, acabamos aceitando o irreal como se fosse real, sem nenhuma reação. Os contos que aqui se encontram apresentam o mesmo encanto. Vaguemos por eles para admirar, nos vôos de Borboleta, um pouco deste adejar por lugares, pessoas e coisas.
O primeiro conto do livro, Perseguição, ilustra exemplarmente a duplicidade aqui mencionada. A estranheza do relato de algo absolutamente inusitado se reveste de uma linguagem que mimetiza a intimidade das distâncias próprias de uma prosa mineira: uma árvore – objeto no conto revestido de certas características peculiares e pouco dissonantes das que dela se espera no mundo – aqui anda. Como se ouvíssemos um narrador de histórias de algum rincão das Minas, somos levados à desconfiança – e daí ao matutar – de quem suspeita do que ocorre, mas não se dá por rogado em provar o que não via, mas pressentia: o andar da referida árvore. Toda a narrativa mescla assim o relato ao cogitar desconfiado que dele duvida, sempre numa linguagem que se utiliza de expressões investidas da sabedoria secular que se insinua na linguagem de matiz coloquial (“ruminar as idéias, as aprontar de todo, esmerilhar as quinas”) com ditos e conselhos dos avoengos apresentados como máxima moral: “homem que é homem nunca levanta acusação antes de ter certeza do lado pra que a vaca torce o rabo”. Em meio à cogitação próxima de uma personagem de Rosa, o matutar, no entanto, se lança para algo que foge da ordem fornecida como natural às coisas, numa seqüência que, entretanto, segue a ordem temporal das estações. A personagem-narrador, cismada com o descompasso entre o ocorrido e o esperado, matreiramente procura soluções que lhe possibilitem recompor a ordem rompida. Mas o disparate se reveste de um novo dado: o desenho esboçado numa janela para comprovar o caminhar da planta nada permite para provar o que a personagem crê ver, pois no dia seguinte é a janela que não mais por lá está.
Da dúvida ao convívio lastimoso com a ordem rompida, revela-se a árvore a acompanhar-lhe os passos. Marotamente trava-se um duelo de esconde-esconde em que a personagem-narrador, após desistir de dela se desvencilhar, entrega-se a um convívio que além de prudente parece-lhe ser o mais adequado às vicissitudes, como se do incômodo surgisse uma oportunidade de bem-estar: de perseguidora a árvore passa então a ser prazerosa sombra. Mas o espanto não se esgota: o andar da árvore por ninguém mais é visto. Sabe-se, então, ser um abacateiro, como todos parecem reconhecer. O outro, contudo, que adentra no conto como variável interlocução, nunca parece dar conta do fato percebido apenas pelo narrador. Nem este, no entanto, atina para a carência de serem eles persuadidos, pois este outro é figurado, para o narrador, como ameaça permanente de uma possível reclusão pelo diagnóstico que o ameaça de ter sua atitude tachada como loucura.
No entanto, quando a desordem se arvora como ordem aceita por todos, é outra figuração do outro que apresenta o inusitado que ora surpreende: no fim, enfim, aparece quem na árvore esbarre e recrimine o narrador por levá-la por toda parte.
Exemplarmente, este primeiro conto de Borboleta revolve-se traçando traços que se desdobram nos demais. Cabe destacar – para além da narrativa matutante cujo efeito reflexionante do dito ao pensado é sempre de um linguajar de mineiridade - também a cisão entre o narrador e maior parte daqueles que são enunciados como personae de seu convívio; e a dificuldade de lidar com o rompimento de uma suposta ordem funcional e natural das coisas, na perene e infrutífera tentativa de recompô-la; e a acomodação custosa, mas sempre alcançada, de um espanto que se adequa à ordem rompida e que não é problematizada pelos demais.
O segundo conto, Casa Alemã, narra a vicissitude de uma personagem que de repente esquece por completo o que sempre fizera, seu trabalho. Pouco a pouco novamente instaura-se distância e incompreensão alheias: a imediata demissão do patrão; a internação aconselhada pelo médico; a criação, por parte da família, de uma dependência externa na casa a fim de isolá-lo dos demais membros; os amigos que dele se afastam pelo cheiro decorrente da ausência de banhos e qualquer outro cuidado higiênico. S’oripe, a personagem central, adentra, assim também no imaginário sonoro e figural de uma personagem de Rosa e Rubião.
Diversamente, contudo, do alheamento a tudo, a pesonagem apresenta um novo hábito na sua recomposição do mundo. Sendo assim, adquire a meticulosa mania de recolher, dobrar e separar papéis.
Mas, para além desta desordem social, o narrador adentra também no território mental da personagem, pelo qual se apresentam traços da família, explicitando a exclusão social e racial atávicas. Em meio à desordem, porém, novamente um traço de integração: o amigo Nestor, guardando silêncio, acompanha a personagem central mesmo quando esta se lança à fagia dos próprios dejetos. Mas do caos e desordem novamente emerge uma nova ordem: dos papéis acumulados surge a casa que nem o avô, nem o pai, nem o próprio Eurípides pedreiro – embora todos a tivessem sonhado – construíram. Aponta-se no final para o início do conto, pois por fim se justifica na narrativa a admiração da multidão que inicialmente o cercara. A casa de lixo e papel recompõe no abjeto e na sujeira a reproposição do espanto pela arte dos passantes a contrastar com a reflexão meticulosa e que não se rende ao pragmatismo, pois fruto de um matutar que olha distante para o infinito.
O conto O Bolso narra, por meio novamente de uma personagem em acentuado destaque, as desventuras do narrador com a moça Palmira. Como voyeur dos encontros furtivos desta com o amante, aquele tenta seduzi-la por crer saber o que a ela mais atrai. Pelo sorriso dela ao revolver os bolsos do amante, o narrador nestes vê a causa do fascínio da moça. Ao perceber que a atração não se exerce pelos próprios bolsos, o narrador passa a deles retirar e dar a ela as mais inesperadas coisas. Novamente se rompe a mimética de procedimentos por um mecanismo de presdigitação que é apresentado como se fosse natural, espelhando o natural encanto do mágico de Rubião. Flores, animais de estimação, iguarias, orquestras, estrelas, tudo se lhe é oferecido e ela nada quer, pois nega que eles lhe sejam úteis. Instaura-se, então, um enigma para o narrador apaixonado. Com isso adentra a mimetização de uma linguagem filosófica. Ecoando certos procedimentos machadianos, mescla-se a questão corriqueira amorosa aos dilemas da metafísica ocidental. Novamente há uma cisão. Agora entre a personagem e o sábio ancião por ele consultado. A rejeição da linguagem metafísica, no entanto, apresenta, no fim, o reverso da solução na própria filosofia. Desta feita, é a imagem refletida de um eu que se descobre como desejo da amada. Em mescla do conhece-te a ti mesmo de Delfos a um encontrar-se na subjetividade, apresenta-se a solução para o narrador no mito de Narciso. Como lá, aqui a personagem se lança às águas que o refletem. Diversamente dali, porém, o mergulhar em si é busca desesperada de um outro que nunca vem, pois nunca veio nem virá.
Possessão traz o tormento do narrador com a presença constante da esposa já morta por um suicídio a atenazar sua vida. No contraste de sentimentos e expectativas, a participação obsedante da morta na vida e existência do marido leva este ao inusitado assassinato de uma defunta. Novamente, contudo, reitera-se a incompletude pela ausência de um incômodo que, afinal, preenchia a vida: o tédio da liberação do outro em contraste com o tormento que este era revela-se mais misterioso e inexplicável que os limites da morte que retorna para a vida.
Em A Reforma Pombalina, a narrativa ganha destaque. Mescla-se aqui a fabulação cômica das aves assustadoras de Hitchcock à explícita proximidade com a peça de Aristófanes. E outra vez o texto reverbera Machado, a partir já da ironia do título. No fim, a litania pombalina ressoa Baudelaire, mas, diversamente deste, não opõe a força poderosa de uma negatividade satânica à ordem instaurada, já que a mudança, vista sob lentes semelhantes às do bruxo do Cosme Velho, apenas se inscreve como nova nomeação de uma perene ordem. Se a queda do Império e a instauração da República neste impliquem apenas a mudança da placa da padaria, em Borboleta as pombas detentoras do poder reescrevem o Pater Noster no prolongamento de um domínio sempre ocupado pelo vigário.
Engano narra as vicissitudes de um homem com suas várias mulheres, sempre, porém, com a presença fiel e constante de seu cão. Para além da narrativa cronológica do narrador adentra aqui, antecipando o fim, falas judicativas de personagens femininas não identificadas. Como o coro de uma tragédia, o diálogo destas vozes femininas entremeia a narrativa para, por outro procedimento, novamente demarcar a fronteira entre o normal e o patológico. Sendo assim, a narrativa levada a termo pelo narrador justifica plenamente a fidelidade que ele traça, em linha de continuidade, entre o cão morto e o filho que nasce. Mas a voz do outro que adentra no conto como um coro insiste na avaliação da loucura de quem se distancia do comportamento humano esperado, ora transfigurado numa aliança canina como modelo de éthos em meio à falta de compromisso das relações entre o homem e suas mulheres. A valoração das vozes femininas é assim revertida pelo padrão de fidelidade entre um homem e seu cão, revalorizando o modelo exemplar do cinismo antigo.
O Segredo da Pedra narra a transformação de Maria das Dores em Maria das Graças. A narração se vale do tópos da filha de um coronel que, impedida pelo pai, não pode se aproximar de ninguém. Para além dos muros e janelas, contudo, brota o amor da moça por Gabriel Ricardo, que logo aparece morto. Levada ao paroxismo, contudo, a narrativa ecoa Garcia Marquez e, como Remédios, das Dores se torna, por amor de Gabriel, um anjo. Daí decorre a derrocada do pai e a dor de José de Almeida, também por ela apaixonado. No misto de narrativa alegórica em que as personagens, biblicamente nomeadas, se transmudam em seres da natureza, revela-se misteriosamente este eco da fala de seres e coisas em imagem literária em que Borboleta rende tributo a Drummond.
Raizero apresenta, em reverberação do primeiro conto, a proximidade do homem com a árvore. Novamente em fala de um narrador que mimetiza o matutar caboclo, agora a narrativa explicita a transformação do próprio homem em raiz. Tema caro a Murilo Rubião, a metamorfose também se apresenta em Borboleta, mas com as características próprias pelas quais seus vôos informam uma topografia específica para o maravilhoso. Levado aos rincões de Goiás, o narrador reencontra o amigo como enraizamento cuja firmeza ao solo da tradição se metaforiza, evocando a fala de Cora Coralina, em broto firmado no chão.
A Quarta Verdade, por sua vez, brinca parodicamente com o Discurso do Método cartesiano e suas fundamentadas verdades. Lançando mão de sua formação filosófica, aqui Borboleta reinscreve o arrazoado que busca certezas metafísicas no plano cotidiano que reinterpreta os dados e deixa, a partir deste contato com a existência, a dúvida sobre a certeza da indiferença para com o mundo como a matriz mais próxima de algo semelhante à felicidade.
No conto Non Veritas Borboleta entremeia o risco de morte de uma mãe numa cirurgia com o contraste entre a dor da família e a alegria da cadela nos momentos que antecedem a operação. Com a iminente morte da mãe, o narrador, machadianamente construído, destaca os sentimentos da dor dos parentes com a perda do que a mãe significava na realização de seus desejos mais imediatos. A dor, pungente, é aliviada pela providencial lembrança de uma apólice que assegura a todos uma maior tranqüilidade na consecução de seus anseios. Quando já estão todos conformados com uma morte agora já tranqüilamente esperada, anuncia-se, para espanto geral, ter sido a cirurgia um sucesso. Na expectativa do despertar da mãe, é novamente silenciada a alegria cinicamente estabelecida entre a cadela e a mãe.
Vicentão é o último conto do livro. Narra-se aqui, por intermédio do irmão da personagem que intitula o conto, o estranhamento com uma vida que destoara do comum. Sabe-se então, retrospectivamente, a partir de uma discussão sobre os peixes não mais pescados da lagoa, que Vicentão sempre se distinguira dos irmãos por estatura e princípios. Ainda no campo, ele, desde pequeno, nunca comera carne. Depois, após viver na cidade, a personagem-título explicita razões e doutrinas para justificar seu comportamento. Mescla de narração e explicitação, por meio dela, de matizes filosóficos, o conto disserta sobre a Metempsicose e outros princípios, mas sempre sob a perspectiva de um narrador que conhece do conto só a metade. Aqui, no entanto, a incompreensão e estranhamento com o que se diferencia da normalidade ganham o afeto do narrador e de outras personagens que com ele convivem. A narrativa, revestida de um matiz filosófico, modela, no conto final do livro, personagens que têm uma devoção e um especial carinho pelo que não compreendem, abraçando e acariciando a estranheza.
Para este admirado leitor que ora escreve, os contos de Borboleta, como um estranho inseto que formulasse a percepção do mundo pelas entranhas de suas personagens, destoam do esperado e apontam para uma literatura que resvala o maravilhoso. Este, na afirmativa de Carpentier, como uma “alteração inesperada da realidade”, ilumina o real pela revelação “das riquezas despercebidas da realidade, de uma ampliação das escolas e categorias da realidade, captadas com particular intensidade, devido a uma exaltação do espírito que conduz a uma espécie de ‘estado limite’.” Há em Borboleta como uma topografia do real que, no entanto, opera o maravilhoso como parte da própria realidade. Ele de tal modo insere a diferença na normalidade que o paradoxo aparece como uma dóxa a mais. Paradoxalmente, contudo, aquele, mesmo se apresentando como uma dóxa entre outras, é muito melhor do que as demais para a compreensão do mundo. Estas supõem um norte que normatiza; o paradoxo inverte os pontos cardeais para explorar as diversas camadas e veios que forjam um real que não é previamente pressuposto nem se articula pelas personagens que não ganham realce em seus contos. Estas parecem sempre se deixar guiar pelas dóxai norteadas. As personagens centrais dos contos de Borboleta, entretanto, deslocam o centro; movem as árvores; matam os mortos, em busca do sossego em vida; humanizam a fidelidade dos cães com certa misoginia nascida a partir do encanto e poder da mulher; abandonam a terra para encontrar-se nos céus e nas águas. Há toda uma topologia que redescobre o pouco que há de melhor no homem a partir de uma reversão da ordem figurada como estabelecida pela normatividade e normalidade das dóxai.
O inverossímil assim recebe contornos de verossimilhança, pois coisas e seres se mostram sempre a partir do olhar instigante destas personagens paradoxais que vêem e circunscrevem medidas de um outro espaço e tempo, compostos a partir da presença do ficcional que se delineia na trama da narrativa singular destas personagens.
Ao leitor, pois, que inadvertidamente chega até o final desta apresentação, cabe, em primeiro lugar, lamentar pelo tempo perdido ao lê-la: melhor valia ter ido de imediato à saborosa prosa de Borboleta. Além disso, para concluir, cabe destacar a este leitor paciente que aqui chega: os contos de Borboleta são tão voláteis e encantadores como a alcunha do autor, ensejando tanto a perseguição quanto a apreensão, como se fôssemos caçadores e colecionadores deste lepidóptero e das ricas crisálidas que o revestem.
Adriano Machado Ribeiro
Julho de2009